Sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007
10 anos da Casa do Surfista, projeto que já deslanchou várias carreiras de sucesso.
Thiago Cunha demonstra seu compromisso com o surf investindo pesado desde as categorias de base até as profissionais.
Aos 40 anos, casado e pai de quatro filhos, Thiago Cunha demonstra todo o
seu compromisso com o surf, com pesados investimentos desde as categorias de
base até os profissionais. Ao longo desses 17 anos e quase 10.000 pranchas
shapeadas, ele apresenta todos os anos novos nomes para o Brasil e para o
mundo. Atletas que ainda no início de suas carreiras poucas chances teriam,
caso não existissem atitudes e iniciativas como as de Thiago, que há mais de
dez anos criou o projeto Casa do Surfista, e o mantém até hoje abrigando
atletas carentes que tenham potencial e buscam projeção para o
profissionalismo. A sua devoção pela garotada já lhe rendeu bons frutos em
todas as esferas do esporte.
CS :Como e quando surgiu a Casa do Surfista?
TC :Venho de família grande e tradicionalmente praticamos esse tipo
de ajuda em várias esferas da sociedade. Tenho parentes que semanalmente
vão às instituições levar roupas e alimentos, existe uma festa junina que
acontece há mais de 25 anos, sempre na época de São João, onde todos, a maioria
familiares, participam de brincadeiras e jogos a preços simbólicos e
tudo aquilo que se arrecada é transformado em agasalhos e cobertores para
doação à um orfanato. A Casa do Surfista nasceu desse mesmo sentimento,,uma parte do que conquisto através do meu trabalho reverto para
fomentar o esporte e criar possibilidades de inclusão para os atletas que
têm interesse em se dedicar ao esporte. Isso começou no início de 1998,
abrigando em minha própria casa, e posteriormente construindo
instalações na fábrica, que mesmo modesta, já revelou muitos talentos que
hoje representam o Brasil mundo afora.
CS : Porque tanto investimento nas categorias amadoras ?
TC : Acredito que são eles que mais precisam de incentivo e apoio, isso
nos garantirá sempre uma renovação.A partir do momento em que incentivamos novos
seguidores do esporte, por mais que não se faça de todos eles competidores em
potencial, de certo estaremos criando gerações de campeões na vida.
CS :Para apoiar os atletas você conta com algum tipo de ajuda ou patrocínio, ou arca com todas as despesas sozinho?
TC :Não conto com nenhum tipo de apoio direto à Casa, esta é mantida por mim, por isso inclusive os critérios para ingresso tendem a ficar cada vez mais rigorosos, para podermos manter quem efetivamente está focado no futuro e nas competições. O nosso projeto ideal, conta com nutricionista, preparador físico, médico e professores, além de uma governanta responsável pelas rotinas da casa, que será independente da fábrica.
CS : Sua equipe é formada somente por nordestinos ?
TC :Não, muito pelo , o foco do meu trabalho é a garotada.
Independente da região ,o que avaliamos é o índice técnico do atleta, assim
sendo teremos condições de atuar em todos os estados do Brasil de maneira
eficiente e criando possibilidades diversas. A TBC desde 2000 coloca todos
os anos pelo menos um atleta na seleção Brasileira que vai para Panamericano
e mundiais ISA GAMES. Como resultado disso já conquistamos quatro títulos
mundiais amadores, com o Alejo Muniz (SC) em 2004 no "KING OF THE GROM´S"
até 16 anos, quando ele era da equipe, em 2005 Wiggolly Dantas (SP) também
até 16 na França, ainda em 2005 no ISA GAMES JR até 18 com o também Paulista
Jefferson Silva e fechando com chave de ouro na Austrália com Pablo Paulino
(CE) até 20 no Pro - jr. Ou seja, dos quatro título mundiais, só um foi
conquistado com atleta nordestino, mais uma vez demonstrando que o meu
trabalho está bem difundido em todos os estados do Brasil.
CS :Quem da sua equipe, você diria que vai dar o que falar este ano ?
TC :Além dos que já figuram em conquistas ano após ano, eu diria que
Filipe Braz (RJ) é o nome que deve começar a freqüentar os pódios de peso
mais vezes esse ano. Aos 14 anos ele teve uma ascensão muito rápida no final
de 2006 e é promessa forte para esse ano. Além dele incluiria também Felipe
Toledo, que apesar de muito jovem ,12 anos, já apresenta surf de gente grande
com manobras atuais e inovadoras, já traz de casa pois é filho do bi-campeão
Brasileiro Ricardo Toledo. E mesmo sem dar nomes, tem uma meia dúzia de
garotos prontos para fazer bonito esse ano
CS :O que na sua opinião falta para termos um campeão mundial WCT.
TC :a princípio me parece que é questão de tempo. Temos um grande número
de ótimos atletas nessa e em próximas gerações. Existem ainda alguns erros
que atrapalham uma maior exposição na mídia dos atletas Brasileiros, uma vez
que não vejo a nossa mídia preocupada em dar uma atenção maior para as novas
e novíssimas gerações. Com a chegada da Confederação, que ainda é jovem ,isso
tem diminuído muito rápido. Mas existe não só por parte do público, mas
infelizmente por parte da nossa imprensa e alguns atletas ,a impressão de que
aquilo que vem de fora é melhor que o nosso. Eu pessoalmente discordo disso,
pois sei que somos os melhores shapers de pranchas pequenas no mundo, com
qualidade e quantidade superior à maioria dos países, e se nos falta ainda
um material específico voltado para a fabricação de prancha, além de alguma
experiência e regulamentações, nos sobra criatividade e talento. Quando
estivermos todos unidos em uma só voz, seremos ouvidos por todos, e vamos
fazer barulho de montão pelo mundo a fora.
CS :Como foi 2006, e quais as suas expectativas para 2007
TC :2006 foi um ano difícil. Eleição e muitos escândalos na política.
Teve a copa do mundo de futebol, e isso complicou um pouco o meio de campo
no comércio em geral. Saí da sociedade em uma loja que havia feito, isso
também ajudou a dificultar as vendas. Mas agora o meu público sabe que estou
de volta na fábrica e as coisas começam a se acertar. Talvez tenha havido
uma bolha de crescimento no mercado do surf nos último anos, que causou essa
instabilidade e grandes transformações, que a meu ver serão benéficas para
o mercado como um todo. Em pouco tempo teremos uma entidade representativa,
todas as categorias profissionais e classe trabalhadora tem, não deve ser
diferente com o surf, pois se não, estaremos sempre andando sem o apoio e o
incentivo que é direito de todo segmento no país.
Penso que de agora em
diante haverá mudanças no material, e em algumas etapas da fabricação. A
máquina nos ajudará muito, também como ferramenta na hora de trabalhar esses
materiais. Eu já desenvolvo modelos para serem feito pela máquina há quase
dois anos, e tenho feito testes com quase todos, e com atletas diferentes. Muitos
aprovados, mesmo sem saberem que se trata de modelo da máquina. Talvez
interferisse na maneira do atleta analisar as mudanças feitas, o fato dele
saber que é prancha de máquina, agora faremos ajustes específicos com cada
um, a partir daquilo que tenho como modelo inicial. Acredito que estarei
usando a máquina em 50% da minha produção a partir do segundo semestre.
CS :O surf está ganhando cada vez mais espaço no Brasil graças à pessoas como você. Qual a sua sensação ao perceber que jovens que não tinham oportunidade de mostrar o seu talento, como tantos que você abrigou, hoje são revelações do cenário do esporte, em decorrência do seu apoio?
TC :É realmente gratificante observar resultados positivos em tudo que se
faz. Não me sinto fazendo nada mais que a minha obrigação, no sentido de investir no mercado de onde tiro o sustento da minha família, creio que dessa forma estarei garantindo muitos e muitos verões pela frente, além da sensação do dever cumprido, de certo estamos formando indivíduos sadios, capazes de sonhar com o futuro, além de criarmos possibilidades para aqueles que têm poucas oportunidades. Isso realmente faz diferença.
CS :Deixe uma mensagem para a galera
TC :É isso aí, temos que ter paciência para esperar o momento, tolerância
para compreender a tudo a todos, mesmo quando discordamos de algo, e empenho
para nos prepararmos e conquistarmos tudo aquilo que nos é de direito, só
assim superaremos nossas próprias dificuldades. Boas ondas.......